sábado, 15 de novembro de 2014

VII - A EPIDEMIA EBOLA:
BIOQUÍMICA, PROTEÍNAS E O ORGANISMO HUMANO


Entenda um pouco sobre os princípios bioquímicos da doença considerada por muitos a mais devastadora já descoberta na história da humanidade.





"A inibição da localização nuclear do PY-STAT1 pelo VP24 ocorre devido à competição direta do VP24 e à aglutinação da subfamília KNPA".
Estudo Cell Host & Microbe, Faculdade WUSM



As proteínas são compostos orgânicos relacionados ao metabolismo de construção, e estão envolvidas nos mais diversos processos do nosso organismo, inclusive no que diz respeito à proteção contra agente infecciosos como o Ebola, que só obtém o seu sucesso e adquire capacidade mortal, através do mal funcionamento de uma proteína. Como foi discutido na postagem passada, no momento em que o organismo percebe um agente patogênico, uma proteína entra em ação e alerta as células saudáveis do corpo sobre o invasor, enviando uma mensagem diretamente ao centro de comando da célula, utilizando-se de uma via de emergência, em vista de preparar a "resistência" do corpo para a batalha contra o mesmo.
Entretanto, isso não acontece com o Ebola, que ‘hackeia’ o sistema de comunicações do organismo e libera uma proteína especial, que faz o mensageiro ficar irreconhecível e torna assim, o sistema imunológico cego para a sua presença, que passa despercebida, até o estágio onde os sintomas estão evidentes, ponto esse, em que o Ebola já agiu e danificou diversas partes do organismo.
Mas como se dá esse processo?

 

Cell Host & Microbe – Como o Ebola Mata

Em uma publicação científica aberta ao público, Cell Host & Microbe, pesquisadores da WUSM  (Faculdade de Medicina da Universidade de Washington), deram mais um grande passo para entender o modo como o vírus Ebola age no corpo humano. Já era de conhecimento dos cientistas a relação que existia entre uma proteína do vírus e uma proteína essencial ao sistema imunológico humano. O estudo, que tenta explicar o fato de o Ebola ser tão mortal em seres humanos, será explicado nos itens abaixo.



KPNA5, Interferon, STAT1, e a defesa do nosso Organismo

Nas nossas células existe uma proteína chamada KPNA5, que faz parte de um subconjunto de transportadores nucleares conhecidos como carioferinas alfa (KPNA, na sigla em inglês), cujo trabalho, é fazer a comunicação entre as células, como um mensageiro, transmitindo sinais e carregando todo tipo de mensagens do núcleo celular para outras partes da célula, ou vice-versa, que acabam por controlar várias funções do organismo, incluindo nossas respostas imunes.
Normalmente, quando da ocorrência da invasão do organismo por um agente infeccioso, outra proteína, o STAT1, é transportada para o núcleo, onde inicia a ativação dos genes de centenas de proteínas antivirais. O núcleo então, aciona seus alarmes celulares e libera a interferona, (que já começou a ser discutida na postagem passada), cujo nome, lembra “Interferir”, efeito esse, que faz parte da sua função.
A Interferona (imagem abaixo) produzida, então, combate o vírus, a bactéria, ou qualquer patógeno que esteja atacando as células, como explica Chistopher Basler, co-autor e professor de microbiologia no Hospital Monte Sinai, no comunicado do WU:

"A interferona é essencial para nossa proteção contra os vírus [...] Essa proteína é a responsável por várias respostas imunes a infecções virais, incluindo a autodestruição de células infectadas e o bloqueio do abastecimento necessário para a reprodução viral."

Ebola, VP24 e a Morte

O vírus Ebola é bem beneficiado se trabalhar em um organismo que não ofereça qualquer interferência em sua ação e, por isso, produz uma proteína especial que atrapalha grandemente o sistema mensageiro e protetor descrito acima, chamada VP24.
Tudo acontece da seguinte forma: Quando o Ebola invade o organismo, sua proteína se liga a uma molécula hospedeira conhecida como KPNA5, que, como já foi visto, é uma importante mensageira da célula. Por ação do VP24, que rouba o lugar destinado ao fator imunológico, o KPNA5 perde a capacidade de transportar STAT1, e a proteína não consegue alcançar o núcleo celular, e ativar assim, a produção de Interferona. 
O vírus do ebola desabilita o sinal antiviral celular intrínseco, facilitando a sua replicação, sem impacto no transporte normal de carga celular, e a sua ação, explodindo as células e se espalhando pelo corpo, ocasionando os diversos sintomas.
Quando a cavalaria biológica finalmente é ativada, o sistema já foi estilhaçado e não tem a capacidade de agir normalmente já que a presença do VP24, faz com que as células de defesa não consigam alcançar os lugares que estão destinadas a defender, atrasando ainda mais a resposta imunológica.



A tempestade de Citocina

Outro enorme efeito da supressão do sistema imunológico antiviral, é uma possível abertura para uma “tempestade de citocina”, efeito que consiste basicamente na produção exacerbada de citocinas, classe a qual pertence a Interferona, e que pode resultar em uma resposta violenta e mortal.
A produção de citocinas se inicia quando o organismo localiza algum invasor, e sua função consiste basicamente em enviar as células de defesa pra as áreas afetadas, onde as mesmas realizarão o trabalho respectivo, além de produzir mais citocinas. Um corpo saudável consegue controlar a volume da produção, mas durante uma “tempestade”, o comando para cessar a produção não é recebido nunca, e assim, as respostas imunes ficam descontroladas, desencadeando um ciclo de estímulos que resulta em problemas nas respostas imunes inflamatórias, febre alta e acúmulo de fluidos corporais e células imunes mortas, que somado ao declínio na capacidade coagulante do sangue infectado, irá resultar no sintoma mais terrível e famoso do Ebola: O derramamento de sangue pelos poros.

E o futuro?




Compreender o método que o vírus do ebola utiliza para paralisar o mecanismo de defesa celular irá servir certamente, de referência para a produção de compostos farmacêuticos que visam barrar a ação do vírus no organismo humano. 
Com a interação existente entre as proteína KNPA5, STAT1 e NP24, desvendada, resta aos cientistas do mundo inteiro, descobrir como podemos proteger e manter intacta a função de comunicação do mensageiro celular, e garantir assim, que o nosso organismo efetue uma resposta imunológica normal e controlada. 
Neste ponto de vista, acreditando no potencial de descobertas que possui a ciência humana, é possível que, no futuro, o temível vírus Ebola, que hoje abala o mundo e mata em massa a população africana, se torne apenas uma infecção viral comum que afete ocasionalmente a espécie humana, mas que não seja letal.





Em breve...
Sobre o Ebola, muitas perguntas podem surgir:
O que é MSF e quais os riscos dos profissionais da saúde que trabalham com o Ebola? É possível a cura total?  Tem Ebola no Brasil? O Ebola seria um grandioso embuste? Qual a relação entre o Ebola e a sociedade Africana? Qual a Bioquímica do Ebola?
Esses são alguns dos assuntos que serão trabalhados nas próximas semanas.
Até.



Referências:

<http://motherboard.vice.com/pt_br/read/como-o-virus-do-ebola-mata > Acesso em 15 de outubro de 2014.


<http://exame.abril.com.br/tecnologia/noticias/o-que-acontece-quando-uma-pessoa-e-infectada-com-o-ebola> Acesso em 15 de outubro de 2014.

<http://www.infoescola.com/sistema-imunologico/interferon/> Acesso em 15 de outubro de 2014.


<http://noticias.r7.com/saude/cientistas-descobrem-como-virus-ebola-afeta-sistema-de-imunologico-13082014> Acesso em 15 de outubro de 2014.
Nota do autor do Blog


Partindo de um texto de Edgar Allan Poe que nos levava a uma reflexão a respeito do ser humano e das grandes Epidemias, o Blog “A Bioquímica Pegou o Ebola?”, tem discutido diversos temas envolvendo esta doença que tem tomado um espaço tão importante no cenário mundial atual. Durante todo este processo, e por seis semanas, comentamos sobre a origem da doença, a equipe científica que a descobriu, os sintomas, os tipos, o contágio, a transmissão, prevenção, tratamento, relação com a sociedade africana e sua cultura, e, mais recentemente, na sexta postagem, com a abordagem da ação do vírus Ebola no organismo humano, iniciamos a série propriamente bioquímica, que tenderá a se aprofundar mais neste assunto na busca de compreender o Ebola.
Durante nossas cinco primeiras postagens, a Bioquímica foi sendo tratada nos detalhes. Na primeira e na terceira, citei a formação do vírus Ebola e seus cinco tipos, assim como conceituei os vírus e seus componentes químicos, na segunda, foi citada a importância dos vírus para os estudos da Bioquímica, na quarta, como as proteínas podem ser usadas na cura do Ebola, assim como muitos tratamentos e medicamentos que estavam sendo produzidos, e na quinta, como medidas impensadas de solução poderiam agravar o Ebola, na medida em que deixam a população com um organismo mais fraco e suscetível a adoecer.
De agora em diante, com um trabalho já iniciado na postagem 6, a Bioquímica tomará o lugar de verdadeira protagonista, e nos acompanhará até o fim deste trabalho, que concluirá na décima postagem.

Não percam.

sábado, 8 de novembro de 2014

VI - A EPIDEMIA EBOLA:
A AÇÃO DO VÍRUS NO CORPO HUMANO

Entenda um pouco sobre a doença considerada por muitos a mais devastadora já descoberta na história da humanidade.



"O mecanismo que o Ebola explora é extremamente insidioso. O vírus ataca o cuidado e o amor, sobrepondo-se às mais profundas e distintivas virtudes humanas".
Benjamin Slate


Um fato curioso ocorreu em setembro de 1976, na Bélgica, quando um pacote chegou ao Instituto de Medicina Tropical em Antuérpia, contendo uma garrafa térmica azul, (como uma usada para guardar café), e um bilhete. Lá, em meio a cubos de gelo derretidos, estavam frascos de sangue (alguns quebrados) que haviam sido transportados em vôo comercial, na bagagem de mão de um dos passageiros, e, que, segundo o recado, teriam sido retirados de uma freira belga infectada por uma doença misteriosa, e tinham sido enviados do Zaire, (hoje República popular do Congo), por um médico também belga que lá estava. Peter Piot, médico, na época com 27 nos, e atuante como microbiologista clínico, e sua equipe, colocaram algumas daquelas células no microscópio eletrônico, e então veio a grande descoberta: O vírus lembrava um verme gigantesco para os padrões, e era semelhante a apenas outro, o Marburg. Tão logo, entretanto, consultaram especializadas, descobriram que estavam diante de algo desconhecido (na foto abaixo, Peter Piot e um membro de sua equipe).

Após serem noticiados da morte da freira, e da contaminação de muitas pessoas, em duas semanas, os pesquisadores voaram para Kinshasa, rumo a uma aldeia na floresta equatorial, de nome Yambuku, sede do surto, onde havia um hospital e uma escola, dirigidos por Belgas de uma antiga missão católica. A equipe logo ligou a epidemia, e o grande número de um grupo de pessoas infectadas (mulheres gestantes entre 18 e 30 anos), ao motivo do surto, e descobriram que o vírus se espalhava, a partir de uma injeção de rotina que as mulheres grávidas recebiam assim que chegavam, (que devido à condição do hospital, usava de seringas reutilizadas), e também por meio da participação em funerais.
Em vista disso, o próximo passo dos pesquisadores foi barrar a transmissão do vírus, colocar pessoas de quarentena e ensinar como enterrar corretamente os que faleciam, e enfim, as medidas tomadas, e o fechamento do hospital, levaram ao fim da Epidemia, que já tinha matado mais de 300 pessoas, e que foi batizada pela equipe, com o nome de um rio: Ebola. Hoje, depois de 38 anos, o mundo está vivendo a pior epidemia de Ebola do mundo, com muitos mortos e países em surto, e, entretanto, as medidas de saúde são as mesmas de 1976 (isolamento, descarte correto de materiais e higiene), e um tratamento ainda é inexistente.
Neste blog, discutidos muitos temas relacionados ao Ebola, como: um breve histórico do início, (hoje visto de forma mais aprofundada), os tipos, os sintomas, as formas de contágio, o estágio da doença, as formas de transmissão, prevenção e tratamento, e por fim, as relações entre a doença e a história e cultura africana. A proposta desta semana é uma pincelada nos princípios bioquímicos da doença, e mais: Entender como a mesma age no corpo humano.

Como o Ebola age

O vírus Ebola, ocorre geralmente nas células, e, segundo uma reportagem do The New York Times, uma gota de sangue de um paciente com essa doença pode conter cerca de 10 bilhões de partículas do vírus. Acima de tudo, ela se desenvolve de forma rápida, lesando os vasos sanguíneos do indivíduo, e provocando uma hemorragia generalizada que leva à falência total dos órgãos, e no fim, à morte.
Entretanto, não é o vírus ebola que mata a pessoa. O mesmo age de uma forma muito mais sutil e inteligente, e, ao invés de atacar o sistema imunológico (como o vírus da AIDS, por exemplo), faz com que o próprio organismo se destrua, tornando as veias frágeis, e seja levado à morte, geralmente, por uma queda na pressão arterial, em decorrência da perda de sangue. Tal fato decorre principalmente do atraso do corpo em detectar a doença, que só o faz quando está em nível avançado (Um pouco mais sobre isso será explicado no próximo item). 
O Ebola também é prodigioso em termos de sobrevivência, e, embora não consiga se espalhar pelo ar, tem facilidade de encontrar vítimas na medida em que conta com um comportamento nobre e fundamental do ser humano, que é a necessidade do toque, e de permanecer próximos aos doentes para lhe dar conforto e carinho, ou mesmo, como foi discutido diversas vezes, no “A bioquímica pegou o Ebola”, o Vírus conta com o fato de o ser humano ser muito ligado à cultura, coisa que leva o povo africano ao risco da contaminação, principalmente no que diz respeito aos ritos funerários.
Segundo afirma Benjamin Slate, professor de Filosofia e Estudos Ambientais da Universidade do Colorado:

"O mecanismo que o Ebola explora é extremamente insidioso. O vírus ataca o cuidado e o amor, sobrepondo-se às mais profundas e distintivas virtudes humanas".





O Ebola por outro lado, que segundo muitos cientistas defendem, chegou até o homem por meio da ingestão da carne de macaco ou morcego, algo que está ligado à cultura africana, ou então por mordidas de animais, é considerado como um vírus burro, como explica Alexandre Barbosa, professor de infectologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp – Botucatu):

“Durante séculos o ebola deve ter ficado apenas entre os morcegos, infectando-os sem que eles desenvolvam a doença. Esse é o melhor cenário para os vírus, que conseguem sobreviver junto com seu hospedeiro. Quando ele chega a outros animais, como o homem, ele mata rapidamente, porque não está adaptado. Por isso, pode-se dizer que é um vírus ‘burro’: não consegue sobreviver por muito tempo no ser humano”.

Apesar dos fatos citados acima, e de o vírus Ebola ser considerado “burro”, existe a possibilidade de mudanças, e é provável que o mesmo já esteja evoluindo para uma forma mais perigosa, como defende Peter Jahrling, um dos cientistas-chefe do Instituto Nacional de Alergologia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID), que afirmou que a quantidade de partículas de vírus no sangue aumentou, em testes recentes feitos com pacientes da Libéria, fato este, que elevaria as chances de contágio.

Dentro do corpo

O sucesso do Ebola e a sua capacidade mortal dependem do mau funcionamento de uma proteína, e tal fato é muito simples de se entender. No momento em que o organismo percebe um agente patogênico, uma proteína entra em ação e alerta as células saudáveis do corpo sobre o invasor, enviando uma mensagem diretamente ao centro de comando da célula, utilizando-se de uma via de emergência, em vista de preparar a "resistência" do corpo para a batalha contra o mesmo, em que Interferon, também conhecido como interferona, (que é uma produzida pelas células do organismo dos animais vertebrados e alguns invertebrados, e está representada abaixo), terá a finalidade de defender o corpo contra agentes externos, tais como vírus, fungos, células neoplásicas e bactérias, produzindo uma resistência antiviral em células teciduais que não foram infectadas, ligando-se à membrana dessas células, e ativando o gene que codifica as proteínas antivirais. 

Entretanto, isso não acontece com o Ebola, que ‘hackeia’ o sistema de comunicações do organismo ao anexar outra proteína, que torna o mensageiro irreconhecível, e lhe tira a capacidade de entrar nas células, deixando o Ebola livre para agir e se reproduzir, em vista que o sistema imunológico ignora o problema. Desta forma, o Ebola ataca o organismo, circulando rapidamente pelo sangue, colonizando o mesmo, e penetrando em alguns órgãos, (o fígado é um dos primeiros), e células, matando-as por dentro, e rompendo suas membranas, o que coloca mais partículas no sangue. Depois, o Ebola ataca os rins e os pulmões, e os sintomas piores e mais severos aparecem. 




O sistema imunológico começa a agir quando os sintomas já são evidentes, entretanto, seu trabalho é feito de forma descoordenada, já que o Ebola atrapalha a comunicação com as células. Em uma última instância para exterminar o vírus, o organismo começa a destruir a si próprio, provocando as hemorragias. Essa sequência de eventos ocorre devido a uma produção exacerbada de proteínas para combater o vírus, entre elas, o interferon, que, no entanto, começa a ser produzida sem controle, em vista do problema no organismo e acarreta febre alta, acúmulo de fluidos, células mortas e sangramentos.

A realidade do tratamento

Os hospitais africanos estão superlotados e os motivos para a crise do sistema de saúde já foram debatidas na semana passada. O vírus Ebola pode provocar mortalidade de até 90% dos infectados e, segundo o NY Times, boa parte dos que estão com o vírus, simplesmente são enviados de volta para suas casas para morrerem, e, mesmo para os que ficam nos hospitais, não há tratamento nem vacina específica, e a única maneira de manter uma pessoa infectada viva, é lutar contra os sintomas, utilizando-se de injetados fluidos intravenosos para que os órgãos continuem funcionando e a perda ocasionada pela doença seja reposta. Além disso, pode se usar ventiladores pulmonares, ingestão de líquidos, e medicamentos para manter a pressão sanguínea, tratamentos esses, que mesmo aumentando as chances, não garantem a sobrevivência, e além de tudo, são muito caros (Nos EUA um tratamento de um infectado com Ebola chega a custar mil dólares por hora).
A realidade, infelizmente, é que o povo africano está praticamente sozinho nesta luta contra uma doença que fere não só a dignidade humana, debilitando fortemente o corpo e isolando a pessoa completamente do convívio social (caso ocorra o tratamento), mas que ataca também o amor, a compaixão e o apoio dos demais, que, como defendeu a citação do início desta postagem, são as mais profundas e distintas virtudes humanas.



Em breve...
Sobre o Ebola, muitas perguntas podem surgir:
O que é MSF e quais os riscos dos profissionais da saúde que trabalham com o Ebola? É possível a cura total?  Tem Ebola no Brasil? O Ebola seria um grandioso embuste? Qual a relação entre o Ebola e a sociedade Africana?
Esses são alguns dos assuntos que serão trabalhados nas próximas semanas.
Até.

Referências:

<http://www.administradores.com.br/noticias/cotidiano/entenda-como-o-ebola-age-no-organismo-e-porque-e-uma-doenca-tao-mortifera/93832> Acesso em 08 de outubro de 2014.





<http://www.infoescola.com/sistema-imunologico/interferon/> Acesso em 08 de outubro de 2014.

sábado, 1 de novembro de 2014



V - A EPIDEMIA EBOLA:
E AS SUAS RAÍZES NA SOCIEDADE AFRICANA


Entenda um pouco sobre a relação entre a sociedade africana e a doença considerada por muitos a mais devastadora já descoberta na história da humanidade.

                                                                                  



"O mundo está perdendo a batalha para o ebola."
MSF

Em menos de um mês após declarar estado de emergência, a OMS anunciou que o Ebola tornou-se uma ameaça global, e, atualmente, o mesmo devasta o oeste do continente africano como nunca antes.
Inicialmente surgido como uma doença desconhecida às margens do Rio Ebola, em meados de 1976, (ocasionando 431 mortes), e aparecendo novamente em surtos em 1995, 2000 e 2007, o vírus Ebola atualmente, tem causado desde dezembro de 2013, a maior epidemia da doença já registrada nos últimos 40 anos, com 2800 mortes e mais de 5000 diagnosticados.
Desta vez, entretanto, a doença não se restringiu a aldeias, mas atingiu centros urbanos na África, atravessou continentes, foi responsável pela contaminação dos primeiros não africanos, e em consequência disso, causou uma situação de pânico e alerta mundial, fator esse que se soma a um caos completo nos países africanos atingidos que se vêem assombrados com o grandioso número de vítimas.
Nesta postagem, dando continuidade ao tema proposto pelo Blog, serão discutidos os fatores que propiciam o grande desenvolvimento desta epidemia na África, assim como os pilares históricos que sustentam a atual crise no sistema de saúde.

As raízes históricas da Epidemia

Dentre os muitos fatores que propiciam a crise de Ebola que os países africanos (Guiné, Libéria, Serra Leoa, Nigéria e Senegal, e mais recentemente o Congo), enfrentam atualmente, o precário Sistema de Saúde, é um dos principais, e as explicações para tal fato estão demonstradas na própria história do povo africano.

Engana-se quem pensa que a crise atual do sistema de saúde é decorrente somente do Ebola. Como defende o sociólogo Acácio Almeida, tal precariedade é um problema crônico, (mas somente lembrado fora da África em situações como a atual), e que decorre principalmente das medidas estipuladas pela comunidade internacional, principalmente pelos países ricos, desde o processo de independência da maior parte das nações africanas, que ocorreu entre as décadas de 50 e 70 do século passado. Estipulou-se ali, que estes países seriam obrigados a pagar suas dívidas externas, fator esse que desvalorizou a moeda nacional, e desviou para o exterior o dinheiro que seria necessário em um trabalho em prol da reconstrução e estruturação de suas instituições, como as de saúde, por exemplo, que, se tivesse sido feito, teria amenizado ou até mesmo evitado, a crise atual.
Ao analisarmos historicamente os países afetados pelo surto atual, tornam-se ainda mais evidentes os motivos para a disseminação da doença. Guiné, Serra Leoa e Libéria passaram por guerra civil recente, e estão mais frágeis aos estragos da epidemia Ebola visto que investiram seus capitais em guerra, ao invés de saúde.
Além disso, somando-se a esse fator, tem-se o desenvolvimento da mobilidade das populações, propiciado pelas mudanças econômicas, aumento da distribuição de novas tecnologias comunicação e transporte, e até mesmo tensões político-sociais, que tem acarretado um maior deslocamento de indivíduos entre fronteiras de países vizinhos, e até continentes, o que, consequentemente, contribuiu para a disseminação da doença, e o pânico mundial.

Cultura

Um grande obstáculo para o tratamento de Ebola pela OMS, tem sido a cultura do povo africano, que favorece, de forma perigosa, a transmissão do Ebola.  Dentre as muitas questões citadas no comunicado oficial realizado pela entidade, algumas se mostraram importantes, como casos de famílias que escondem pessoas contaminadas em casa (o que aumenta o risco de contaminação dos mesmos e contribui para a superlotação do sistema), ou de pessoas que escondem os sintomas com medo do estigma e rejeição social após a contaminação, e também por negação da doença, fato esse, que tem se mostrado uma grande resistência enfrentada pelos profissionais de saúde, e que fica bem clara no caso apresentado no início da postagem passada, em que a equipe médica foi agredida por um jovem em Serra Leoa, quando tentou levar uma senhora de 90 anos para o centro de tratamento do Ebola.
Ainda segundo a OMS, outros fatores culturais facilitadores de transmissão, incluem o medo das pessoas dos médicos (que, na visão deles, vestem roupas estranhas como "fantasmas" e trazem os seus parentes quase sempre mortos depois de os levarem), assim como os rituais funerários em algumas localidades dos países atingidos. Nestes lugares, os funerais são práticas importantes e cerimoniosas, que envolvem pessoas lavando e tocando o corpo do falecido, (que dependendo da cultura pode ocorrer por vários dias) em demonstração de amor à pessoa perdida. 
Entretanto, estudos já demonstraram que nas últimas horas antes da morte, o vírus se torna extremamente contagioso e, por isso, como já foi debatido anteriormente em postagens passadas, o risco de transmissão a partir do cadáver é muito maior, o que exige, no caso dos funerais, intervenção urgente. 
No entanto, o grande problema é a forma de tratar tal situação, visto que pelo fato de ser uma cultura totalmente diferente, tais rituais não podem ser abordados de uma forma simplista. Para eles, a transferência de fluídos, de certa forma, está na base da sociedade, e, segundo o que acreditam, se o indivíduo não puder mexer no morto, ele estaria indo contra os princípios de sua cultura e colocaria em risco sua própria ancestralidade, por exemplo. Tal fato é um dos principais motivos que os leva a negar as medidas de segurança que devem ser tomadas com os corpos, e chegarem a oferecer suborno aos agentes de saúde para poderem realizar seus rituais, como mostrou recentes reportagens de televisão.



Além desses problemas, alguns padres católicos têm instigado a população na Libéria, e realizado grandes missas pela cura do ebola por achar que a doença é uma praga à humanidade em punição aos homossexuais. 
Até autoridades políticas, como a própria presidente da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf, tem tomado medidas que podem potencializar os problemas causados pelo Ebola, fazendo uma declaração pedindo que os liberianos fizessem três dias de jejum, algo totalmente incoerente com um país pobre e cheio de famintos, principalmente tomando por base bioquímica que um corpo bem alimentado e com todos os nutrientes necessários teria maior força para vencer a doença. Naturalmente, na África, sem levar em conta o contexto opressor do Ebola, a mortalidade das crianças aumenta progressivamente devido à desnutrição em massa, causada pela falta de alimentos energéticos e proteínas, que fazem com que as mesmas percam a capacidade de combater infecções. Imagine agora o caos que causaria três dias de jejum, em pessoas que já eram suscetíveis a pegarem a doença.
É evidente que não se pode tratar tal realidade, profundamente influenciada por fatores culturais, com medidas policiais, ou de repreensão, mas muito mais de conscientização, sempre tendo em mente que, pela facilidade da contaminação, e pelos fatores culturais apresentados, garantir a segurança dos funerais é parte crucial da administração de um surto de Ebola.

A pobreza e o Ebola

Toda a logística da transmissão do ebola é desafiadora para a equipe de saúde que com ele lida, visto que muitas vezes, as mesmas atuam em uma região muito isolada, perto de florestas, e que tem déficit de estradas e de meios de comunicação, o que resulta em uma maior dificuldade para levar os materiais necessários, e até chegar a ter acesso a população - população essa, que muitas vezes é pobre, mora em condições precárias e já possuía, mesmo antes da crise, problemas com diversas outras doenças, que aliás, matam muitos mais africanos do que o Ebola, como a Malária e a extrema desnutrição. 
Tal segregação fica clara em um depoimento de um médico que trabalha para sanar este surto:

Por que é preciso lembrar que o ebola ataca os pobres destes países africanos. A classe média, a elite, não estão sofrendo com este surto”.

As razões para tal fato decorrem principalmente do modo de vida das populações mais pobres que algumas vezes vivem da caça, ou em contato com as florestas (que devido ao contágio proveniente de animais como os morcegos frutívoros e macacos, ou ainda de frutas contendo saliva contaminada, por exemplo, torna-se um grande risco), e tem uma condição que não lhes permite seguir as regras básicas de prevenção, como só efetuar o contato com os doentes utilizando utensílios apropriados, evitar o contato com fluidos corporais, ou descartar adequadamente objetos de parentes doentes.



Diante desta situação, torna-se evidente a necessidade de maior intervenção dos demais países, para que as equipes médicas sejam melhores assistidas, com mais investimentos e pessoas, e tal fato lhes garanta a possibilidade de atingir mais populações, passando as regras de segurança através de campanhas de conscientização, e identificando assim, mais infectados, prevenindo novas transmissões, salvando mais vidas, e plantando uma semente para vencer a batalha, que, como disse o comentário que inicia esta postagem, atualmente o mundo está a perder, contra o Ebola.




Em breve...
Sobre o Ebola, muitas perguntas podem surgir:
O que é MSF e quais os riscos dos profissionais da saúde que trabalham com o Ebola? É possível a cura total?  Tem Ebola no Brasil? O Ebola seria um grandioso embuste? Como se dá a Bioquímica do Ebola?
Esses são alguns dos assuntos que serão trabalhados nas próximas semanas.
Até.

Referências:


<http://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0042-96862000001200019&lng=pt&nrm=iso>  Acesso em 25 de outubro de 2014.


<http://www1.folha.uol.com.br/colunas/patriciacamposmello/2014/08/1503672-por-que-estou-aqui.shtml>  Acesso em 25 de outubro de 2014.